Finda a época televisiva 2011/2012, iniciam-se as inúmeras galas de atribuição de prémios à ficção internacional mais badalada.
Este blog não quis remar contra a maré e decidiu, desta feita, realizar a atribuição dos Prémios 'Olhar Crítico'.
Uma vez que não disponho do tempo suficiente para analisar todas as séries que nos acompanharam durante este ano, os prémios são disputados exclusivamente entre as séries a seguir discriminadas por ordem alfabética:
Alcatraz;
American Horror Story;
Being Erica;
Dexter;
Fringe;
House M.D;
Once Upon A Time;
Revenge;
Supernatural;
Switched At Birth;
The River;
The Walking Dead;
Touch
Sem delongas, apresento o pódio para a categoria 'Melhor caracterização/Guarda-roupa':
4º Lugar:
Revenge
Responsável por ter dado cor, personalidade e profundidade às personagens de The Event, Dexter ou Lie To Me, o figurinista Jill M. Ohanneson entregou-se recentemente à vida dos Grayson e companhia, na série Revenge.
Desde o primeiro episódio que a sofisticação das roupas das personagens nos prendeu a atenção. Uma jogada perigosa, que poderia colocar em causa a credibilidade e a seriedade do programa. Afinal de contas, Revenge não é mais uma série que vive de personagens fúteis e vazias. Não. Nesta série, as vestes têm também elas um papel: O de acentuar o carácter de cada personagem e mesmo de dramatizar as situações. E, para que tal aconteça, é preciso uma sensibilidade e versatilidade, que Jill M. Ohanneson provou ter.
No episódio piloto, que entretanto é 'ressuscitado' no episódio 15, é-nos mostrada a festa de noivado de Emily Thorne (ou será Amanda?) e Daniel Grayson. O dress code é formal. Vestidos vermelhos para as senhoras, camisas brancas para os senhores.
É arquitectado todo um ambiente humano visualmente forte, contrabalançado pelo carácter fingido dos presentes, todos eles uma fachada, vivendo de aparências, escondendo segredos e escondendo-se na roupa que portam. O que não sabiam, e que eu considero absolutamente subtil mas genial em relação à dualidade da cor vermelha, é que as roupas não estavam a esconder coisa alguma, mas sim a prever um acontecimento sanguinário e macabro.
A sofisticação anda de mãos dadas com a história de Revenge, complementando-a de uma forma inteligentíssima.
3º Lugar: Being Erica
Nunca vi uma série explorar tanto o guarda-roupa como Being Erica. O conjunto de trajes para uma série como esta implica, não só uma investigação histórica, como também uma projecção futura. Um trabalho árduo a que Luis Sequeira se entregou em três temporadas, de um total de quatro.
Na quarta e última temporada, o profissional volta a surpreender-nos, depois de uma pausa na temporada anterior, cuja qualidade decrescera acerrimamente, quando comparada às duas primeiras. O trabalho do figurinista basta-nos para conseguirmos localizar-nos no tempo, sem ser preciso que Erica nos explique em que época se encontra.
No terceiro episódio, Erica é transportada para o passado da mãe, com o fito de o explorar e perceber o porquê das recentes atitudes dela. A protagonista acaba por descobrir um segredo chocante, mas antes há tempo para explorar a época e, claro, o guarda-roupa. Através dele, percebemos como funcionava a sociedade da altura, o que acaba por acrescentar ainda mais valor cultural à série.
Luis Sequeira levou-nos a 2019, aos anos 80 e até aos anos 60, através de um trabalho incrível e cheio de vida.
2º Lugar: Once Upon A Time
Não acredito que haja um projecto que dê tanto gozo aos responsáveis pela maquilhagem e pelo guarda-roupa como Once Upon A Time.
Eduardo Castro, responsável por vestir as personagens de Castle ou Betty Feia, decidiu deixar entornar todo o seu lado infantil e sonhador nesta panóplia de contos infantis adaptados.
Trajes barrocos e encantadores, maquilhagem exagerada e exuberante dão cor e acentuam a sensação de conto de fadas que todos conhecemos já desde crianças. É como se a nossa imaginação das histórias de encantar se materializasse nesta série da ABC.
Contudo, este uso de peças de vestuário no mundo dos contos acaba por ser equilibrado pelo mundo real, no qual as personagens se vestem de forma bem mais discreta. E mesmo no mundo encantado somos surpreendidos: Alguém imaginaria a pura e cândida Branca de Neve ser uma ladra fugitiva e se vestisse como o Robin dos Bosques?
É que a história de Once Upon a Time divide-se em dois tempos distintos, ou não fosse ela dos escritores de Lost. No mundo encantado, os conflitos entre personagens vão originando-se e despoletando clivagens e tensões que se engrandecem cada vez mais. Já o mundo real é a consequência do rebentar das tensões entre os personagens. É a maldição da Rainha Má contra a Branca de Neve e os restantes seres. É o mundo onde apenas ela terá um final feliz.
A série acaba por ser, portanto, não um encontro de lugares-comuns, mas sim uma história complexa e que surpreende, até no vestuário, que, se não fosse adequado, seria um fiasco.
1º Lugar: The Walking Dead
A aparência dos chamados Walkers, na série The Walking Dead, é do mais realista que pode existir em televisão. É de um cuidado extremo e assombroso.
Não existem palavras para salientar o excelente trabalho da equipa de maquilhagem e guarda-roupa do sucesso do canal AMC. Eulyn Womble cumpriu eximiamente o seu papel de figurinista da segunda temporada da série, ao seguir os passos da antecessora, Peggy Stamper.
Os momentos de maior suspense e tensão (não digo terror) são quando Rick e os seus companheiros se deparam com os mortos-vivos. Esse clima obscuro e de cortar a respiração não se consegue unicamente quando temos uns mortos-vivos que se parecem mesmo com a ideia que temos de mortos-vivos. Consegue-se quando a imagem dos mortos-vivos ultrapassa a imagem horrorosa que temos dessas criaturas.
No último episódio desta temporada, na qual Rick e os restantes sobreviventes encontram uma casa de um velho rabugento que acaba por lhes dar guarida, acontece o há muito esperado durante os 13 episódios transmitidos: Os Walkers atacam.
O investimento nesse episódio é visível em cada cena, em cada frame e em cada um dos muitos figurantes que assumem o papel de terríveis e brilhantemente caracterizados Walkers.
A minúcia é, portanto, uma das principais chaves para a glória de qualquer que seja a série que temos em mãos. Em The Walking Dead, é tanta que acabou por se tornar no fenómeno de audiências que é.